Piolheira

terça-feira, outubro 07, 2003


Frenesim

SIC e TVI reivindicam ter dado a notícia que hoje fez cair o MNE Martins da Cruz.
A SIC noticiou as movimentações de um ex-ajudante de campo do PR que, adjunto no gabinete de Pedro Lynce, insistia na alteração da lei de excepção para os filhos dos diplomatas.
O diligente militar não estava a pensar acabar os seus dias como director de alguma messe de oficiais já que, segundo a notícia, almejava um futuro radioso como adjunto do MNE.
A TVI noticiou as movimentações de um secretário de Estado do MNE, também no sentido de alterar a lei que, objectivamente, iria beneficiar a filha do ministro.
Ficámos sem saber quem deu a cacha que fez hoje cair Martins da Cruz, embora o demissionário tenha insistido que nada teve a ver com o favorecimento da sua filha.
Palavra de honra que, mesmo que o ministro nada soubesse, lá que havia um grande frenesim nos corredores dos ministérios para objectivamente favorecer o rebento do ministro, lá isso havia... tanto que até deu para duas cachas diferentes em televisões diferentes.


Diário apócrifo do director-geral

O que é que ele queria quando fez o requerimento!? Sabia muito bem que aquilo não estava previsto na lei. Se eu indeferisse tomava-me de ponta e à primeira oportunidade era bem capaz de me lixar bem lixado com as influências dele. Se eu tivesse tomado a decisão de deferir, sem passar cavaco ao meu ministro, nem um obrigado recebia e era agora o bode expiatório. Isto saia cá para fora, como saiu, e eles cagavam de alto para mim e deixavam-me cair, se calhar até investigação da Procuradoria tinha à perna. É claro: chutei a bola para cima, com aquela linguagenzinha ambigua da praxe - são muitos anos de pratica! - e foi o meu ministro que caiu. Eu conheço os políticos de ginjeira, só que eles vão passando e eu é que tenho que aguentar isto aqui a ver se também garanto uma reforma minimamente decente.


Diário apócrifo do ministro demitido

Aquela víbora do director geral não invocava a igualdade de oportunidades para pedir o deferimento do requerimento? Não escrevi eu aplique-se daqui para a frente a mesma metodologia? Agora, lendo bem, aquilo de facto era uma armadilha daquele viscoso do director-geral. E eu cai que nem um pato. Mas o outro - e não me venham dizer que foi a raparigita que teve a ideia de escrever o requerimento! - fica no governo, e eu, por causa de uma desatenção estúpida e de um bocadinho de facilitismo, tive que ouvir o primeiro, com falinhas mansas, a pedir para eu me demitir. Fica-me de emenda. Em política não há gratidão.


Diário apócrifo do ministro que fica

Quem é que foi vender esta história à SIC? Terá sido o Mathias, que andava à coca disto depois da nega que os chuchas deram à enteada dele e que aproveitou para se tentar vingar de mim? Deve ter sido ele, não deve ter sido coisa dos chuchas, que esses andam para ai com o rabo entre as pernas. É claro que o irmão do Costa encheu a boca com esse pregão da ética ao gosto de jornaleiros e varinas e aproveitou para fazer um circo desta história e para encher mais os bolsos do Balsemão à custa das audiências do povão analfabeto que quer festa. Não há paciência para esta gentinha. Foi chato foi isto do Lyince ter de cair. Mas enfim, é a vida!



Diário apócrifo da menina

As pessoas são muito estúpidas e invejosas. Coitado do papá.



Diário de ninguém

O meu filho não conseguiu entrar na Universidade, a culpa deve ser minha que não consigo dar-lhe o dinheiro que ele me pede para os livros. Era bom que ele voltasse a tentar para o ano mas não sei como vai ser agora que fiquei desempregado. O Jaquim disse que talvez conseguisse meter uma cunha lá na Câmara. Para mim não, com esta idade mandam-me dar uma curva, mas ele disse que talvez conseguisse alguma coisa para o rapaz, nem que seja para varredor, se calhar vai ter mesmo que aproveitar, que isto está um bocado mau.


A piolheira regressou de uma longa hibernação estival. Boa noite!
Obrigado aos que quiseram saber da nossa sorte e perguntaram por nós, em particular JPP.
Não sabemos se vai ser possivel garantir alguma continuidade. Não prometemos nada, muito menos pela nossa honra. Obrigado.


quinta-feira, maio 29, 2003


A dignidade dos tolos

O director do Público, JMF, escreve hoje em editorial sobre o caso de pedofilia. Fala de escutas telefónicas, prisão preventiva, direitos dos arguidos e outras coisas deveras importantes, às quais junta este dislate:

"É razoável que o juiz deste processo, que deveria cultivar a distância e o recolhimento, apareça nas televisões, em ténis, jeans e t-shirt, deixando cair uma ou outra palavra quando devia estar calado? Não deveria um juiz, símbolo da justiça e do seu equilíbrio, cultivar uma imagem de dignidade e severidade, incompatível com a pose desportiva com que surge diariamente perante os portugueses? Se nos tribunais se continuam a utilizar togas e a respeitar um conjunto de formalidades destinadas a construir uma imagem de severidade e respeito, não entenderá este juiz que deve respeitar um mínimo de formalidade na forma como se veste sob pena de criar a imagem que este caso está nas mãos de alguém sem maturidade?"

Ignora JMF que o juíz foi surpreendido pelas televisões durante a sua pausa de almoço e que o consumo do rissol e da sopa no café da esquina não fazem parte das suas funções oficiais?

Esperamos não encontrar este Verão JMF em Cacela Velha, de sapatos de vela, calções e camiseta (de marca, claro) porque tal indumentária não se coaduna com a dignidade exigida às funções de director do Público.

Obrigado JMF, agora sabemos que não é preciso uma grande cabecinha para ser director de um jornal de referência.


Perguntar não ofende

Porque razão a notícia de hoje "Tribunal convoca Paulo Portas a depor no caso Moderna" está incluida na nóvel secção Pedofilia do DN ?


Tudo o que não se aprende nos cursos de comunicação social

Notáveis as notas de JPP sobre as escolas do jornalismo político. Aguardamos com ansiedade a vez da escola de O Independente.


segunda-feira, maio 26, 2003


O grémio contra-ataca

Um dos mais ilustres comentadores do solo pátrio, Marcelo de Rebelo de Sousa, domingo à noite na TVI, trouxe a público as mais diversas teorias da conspiração. O professor Marcelo nomeou a coisa, para a desmontar, ao mesmo tempo que fez, perversamente, alguns avisos à navegação, que nos soaram mais ou menos assim:
Fraldisqueiros, não vale a pena tentar plantar coisas no processo, não pensem que se safam!
ou, dirigindo-se indirectamente ao seu inimigo figadal:
Meu menino, não estejas para ai com ideias que as pessoas não se vão esquecer do caso Moderna!.

Humildemente decidimos enveredar pelo mesmo caminho do professor Marcelo, entregando-nos às mais desbragadas teorias da conspiração, ainda que sem o brilhantismo do dito comentador, na certamente vã mas esforçada tentativa de regressar aos destaques do blogo (já que hoje o mediatismo é quase tudo), seja na categoria de humor, seja no da actualidade, já que nos dias que correm as duas coisas estão intimamente ligadas.

Então é assim:

Finalmente parece que a coisa está afinada e o grémio tomou conta da agenda política do PS, que estava à deriva. No domingo foi bonito de ver. Ferro Rodrigues sereno, confiante na justiça. Ferro Rodrigues incomodado com a posição desbragada de João Soares.

Afinal o que é que terá dito Soares filho de tão grave, ainda para mais numa reunião à porta fechada? João Soares, segundo o que foi soprado à imprensa, terá defendido a teoria da cabala contra o PS. Mas não foi precisamente isso que deram a (sub)entender os principais dirigentes socialistas nos dias anteriores?

Foi, mas assim é que está bem. O líder com postura de Estado, confiante nas instituições. Um peão de brega a não deixar cair a teoria (mais que plausível) da conspiração, insinuando, ainda segundo o relato da imprensa, que nisto tudo está o dedinho de dois nomes, Portas e Santana. O mesmo peão de brega Soares a fazer hoje a manchete do Diário de Notícias, "João Soares ataca Portas e Santana", arrastando (ou melhor, segundo o relato da imprensa, porque ele nada disse) estes dois para a beirinha do lodaçal onde outros querem enfiar o PS.

João Soares, que recusou ter dito o que a imprensa diz que ele disse, a escrever, no seu site, sob o elucidativo título Delícias: "O espectaculo mediatico que se lhe seguiu [à comissão nacional do PS] e hoje se prolonga é verdadeiramente inacreditavel. Comentarios e noticias sobre coisas não ouvidas e não ditas. Muito, muito mau gosto. São as delicias do tempo que estamos a viver".

Magistral. O grémio no seu melhor a avisar: conhecemos os vossos processos, também sabemos como se faz. E isto foi só um cheirinho....


domingo, maio 25, 2003


Segredos de justiça e do Palácio das Necessidades

Levanta a Bomba Inteligente preocupações mais que justificadas sobre "o funcionamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros e como é possível que ex-ministros ponham em causa o processo judicial".

Quanto aos ex-ministros: Se o senhor António Costa, penso que ele se refere, teve acesso a indícios sobre o que consta ou não no processo, ele não teve acesso a mais do que muitos jornalistas tiveram. O que não se pode pedir, o que me parece mesmo intolerável, é que se exiga reserva a quem se considera vítima de escutas telefónicas enquanto elementos que trabalham no processo judicial, ou a montante deste, passam cá para fora todo o tipo de informações, em nome de estratégias que se desconhecem.

O que é também intolerável é que se ameaçe jornalistas com pena de prisão por violação do segredo de justiça - como insinuou o bastonário da Ordem dos Advogados - quando os jornalistas só têm acesso ao processo pelas denúncia de pessoas que se consideram visadas ou através de fontes no interior da própria investigação processual, e estas últimas, de quem se espera verdadeiramente o dever de reserva e o estrito respeito pela lei, é que deveriam ser passíveis de investigação por violação do segredo de justiça.

Quanto à diplomacia: o corporativismo existe em todo o lado e o meio diplomático sempre foi uma casta fechada recheada de grandes apelidos e nomes próprios com muitos "jardins secretos". A este nível os segredos sobre aspectos obscuros da vida privada (ou outros) servem como moeda de troca. Eu sei de ti, tu sabes de mim, é a única garantia de que ficamos os dois calados. O que aconteceu com Jorge Ritto, a protecção de que gozou desde o início da sua carreira, é de facto inaceitável. O ex-ministro Jaime Gama, personagem que não apreciamos, teve o condão de mudar um pouco este estado de coisas criando um espaço no meio diplomático para pessoas de outras proveniências, com verdadeiro sentido de serviço público, basta lembrar o exemplo da ex-embaixadora Ana Gomes e do seu papel no caso de Timor-Leste.


Quem é que anda a receber formação profissional cá em Portugal?

"O Movimento para a Democracia (MpD - oposição parlamentar) pediu a demissão da ministra da Justiça e Administração Interna, Cristina Fontes, afim de se "restabelecer a confiança nas instituições da república e tranquilizar os cidadãos".

Este pedido vem na sequência das recentes notícias de casos de pedofilia que têm surgido na imprensa cabo-verdiana.

Em comunicado saído da reunião, no último fim-de-semana, da Comissão Política Nacional daquele partido, os ventoinhas dizem-se convictos que indícios fortes apontam para uma interferência do poder político na investigações da Polícia Judiciária, com vista a incriminar o líder do Grupo Parlamentar do MpD, Rui Figueiredo Soares. E estranham o "silêncio do governo face aos ataques de elementos da PJ ao Ministério Público"

e segue aqui


sábado, maio 24, 2003


Somos grandes

Há coisas em que somos grandes: Parece que a Time vai dedicar duas páginas ao caso da pedofilia em Portugal


Judeu errante

Escreve a Bomba Inteligente : "Perturba-me que na blogosfera muitos blogues se tenham abstido de comentar a detenção de Paulo Pedroso ou as suspeitas sobre Ferro Rodrigues, e confunde-me o silêncio quase corporativista do Abrupto. Por muito respeito que tenha pelo Pacheco Pereira, julgo que não é suficiente entrar na blogosfera para dizer se temos de fazer isto ou pensar sobre aquilo. Já que está dentro de algo em que não estamos, que contribua para que possamos compreender o que se passa. Que diga aqui aquilo que não pode dizer ali".

Partilhamos a perturbação, embora por motivos diferentes. Primeiro que tudo, julgo que este caso prova que os blogs não se substituem à imprensa porque, sendo essencialmente um espaço de opinião e não de informação (quando são de informação são essencialmente de informação especializada e não geral), podem abster-se de escrever sobre determinados assuntos, ou por falta interesse no tema, ou por falta de opinião fundamentada ou por receio de difamar alguem em questão tão melindrosa como esta, que envolve suspeitas por pedofilia.

Contudo, embora estando JPP "dentro de algo em que não estamos" (suponho que a Bomba Inteligente se refira à política e não aos Estudos sobre o Comunismo de JPP, ou seja, ao seu eventual conhecimento teórico sobre processos kafkianos) porque haveria ele de ter elementos essenciais para ajudar a compreeender o que se está a passar?

Pretende-se que JPP elucide para a acção, já que ele, segundo a Bomba Inteligente, está na blogosfera "para dizer se temos de fazer isto ou pensar sobre aquilo". Pela nossa parte gostariamos apenas de ler a opinião de JPP, sem mais. Gostariamos de saber não propriamente a opinião de JPP sobre crimes previstos no Código Penal, porque ai nada haverá a dizer senão esperar pelo julgamento dos suspeitos, mas sobre todas as questões laterais do processo e o seu eventual reflexo no funcionamento do sistema democrático português, como o conhecemos.

Mas compreendemos duas coisas:

1. JPP não pode dizer "aqui" o que não pode dizer "ali", porque não há espaços fechados, o que ele disser "aqui" (na blogosfera) será citado "ali" (na imprensa).

2. Nesta altura todos gostariamos de ser judeus errantes, não é?


Lembram-se?

Com tudo isto esquecemo-nos, entretanto, e muito convenientemente, do caso Moderna e da testemunha Portas, do cacique local do PSD que não quer perder a imunidade parlamentar para responder em tribunal, e de outras coisas mais.

Esquecemo-nos também das criancinhas violadas. Esquecemo-nos dos outros nomes das listas que para ai corriam. Esquecemo-nos que o actual director do SIEDM, a secreta da área de Defesa, era o proprietário da casa de Cascais emprestada ao suspeito Jorge Ritto. Esquecemo-nos do ministro do actual governo que diziam que era suspeito de envolvimento, uma afirmação que o ex-casapiano Adelino Granjo deixou escapar, em entrevista a um jornal regional de Leiria, e que depois disse não puder confirmar, já que teria sido feita "off the record". Foi há uns meses, antes da remodelação do governo, e Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se então a essa alegação no seu comentário dominical na TVI. Lembram-se?


Assim não

Lê-se na Lusa:"Numa nota hoje enviada à Agência Lusa a propósito destas notícias publicadas no "Expresso", a PGR assegura que "parte substancial dos factos referidos como incluídos no processo não constam efectivamente nele", mas não precisa quais.

A PGR anuncia ainda que irá instaurar um processo-crime para averiguar a fuga de informação verificada neste caso, que se encontra em segredo de justiça".

Ou seja, o Procurador nada esclarece, só contribui para criar mais perplexidade na opinião pública.

Porque das duas uma: ou o que o Expresso escreve é mentira, e então não há qualquer fuga de informação, ou é suficientemente verdadeiro para existir uma fuga de informação. Ora, o que aqui está em causa não é a questão de somenos importância da (muito repetida) violação do segredo de justiça, o que está em causa é a suspeita que recai sob o líder do PS. Essa suspeita não foi criada pelo próprio senhor Ferro Rodrigues, ao dizer o que diz desde quarta-feira, nem pelo Expresso, ao escrever hoje o que escreveu. A suspeita foi criada pelo próprio sistema judicial ou por quem, a montante - parece cada vez mais que assim é - consegue inquinar a máquina. Se assim não é digam de uma vez por todas que Ferro é suspeito. Ou não é, de todo.


De uma vez por todas

O Expresso de hoje escreve que nome do líder do PS, Ferro Rodrigues, consta no processo de pedofilia.

O próprio Ferro Rodrigues havia denunciado que pretendiam envolve-lo, uma declaração premonitória então considerada desajustada pela maioria dos comentadores políticos e pelo próprio PGR, que garantiu que o líder socialista não era suspeito de nada.

Esta situação é insustentável (e a questão da violação do segredo de justiça é aqui de somenos): ao levantar-se uma suspeita deste calibre sobre o líder do PS, o maior partido da oposição, já debilitado pela detenção do seu porta-voz, Paulo Pedroso, fica na pratica inibido do exercício normal da oposição política, ou seja, é a própria democracia que está em causa.

Por isso o senhor PGR deve explicar de uma vez por todas, de preferência em comunicado escrito, para que não haja subterfúgios nem segundos sentidos, se o líder do PS é suspeito ou não.

Se o senhor PGR não tomar essa iniciativa por motu próprio deve o senhor Presidente da República convocar o Conselho de Estado e insta-lo a tal.

Se o líder do PS não é suspeito, pois ainda bem que assim é. Mas então será também premente clarificar, de uma vez por todas, se ele ou outros altos dirigentes socialistas foram alvo de escutas telefónicas, ordenadas por quem, porquê e para quê?

Se, por outro lado, o líder do PS é suspeito, o senhor PGR deve demitir-se porque ao afirmar inicialmente o contrário mentiu aos portugueses.

Neste último caso também o líder do PS deve demitir-se, ou suspender o exercício das suas funções, por ser insustentável exercer a liderança da oposição sob uma suspeita deste calibre. Ainda que uma suspeita seja só e apenas isso: uma suspeita.

Um dia, esperemos que mais cedo do que tarde, se saberá toda a verdade.


Como forjar a culpa. Modo de usar

Técnica desenvolvida pelas secretas de países totalitários, continua muito em voga no Terceiro Mundo. Serve em primeiro lugar para fabricar inventonas, acusando os opositores de golpes de Estado que nunca existiram. Também tem usos subsidiários: paralisar investigações ou desviar atenções dos verdadeiros culpados nos mais diversos casos, lançar o descrédito sobre pessoas, instituições ou o próprio sistema.

Exemplo da inventona para aplicação em países subdesenvolvidos, explicada passo a passo
(nos demais casos o modelo é semelhante, chamando-se a atenção para a nota final):

1. Lançar o boato que está em preparação um golpe de Estado.

2. Alicerçar o boato em falsos testemunhos, que depois se esfumam, ou simplesmente deixar correr

3. Os alvos começam a comentar o boato, dizendo entre si: “há um boato de golpe de Estado!”

4. As forças de segurança vigiam os alvos, recorrendo a escutas telefónicas ou outro meio de prova.

5. Registam que os alvos, no decurso das suas conversas, utilizaram a expressão golpe de Estado (omitir a expressão boato).

6. Deter os alvos, porque foram apanhados a falar em golpe de Estado, ou seja, existem fortes suspeitas de que estavam a preparar um.

7. Os alvos protestam inocência, dizem que apenas comentavam um boato que os atingia.

8. O investigador interroga os alvos: se só ouviram dizer, de quem ouviram dizer? Quem lançou o boato?

9. Os alvos desconhecem objectivamente quem lançou o boato, mesmo que suspeitem não têm meios de prova.

10. A detenção é confirmada. O investigador considera ter ficado provado (ou existirem fortes suspeitas) de que os alvos preparavam um golpe de Estado, já que foram apanhados a falar no assunto e não conseguem provar ser alheios ao mesmo.

11. Confiar que é de difícil alcance o meio de prova para negar aquilo que nunca existiu, quando o processo foi arquitectado de má fé. Quanto mais os alvos protestarem a sua inocência mais parece que estão a tentar forjar alibis.

12. Um dia talvez a inventona seja desmontada mas entretanto os objectivos da operação já terão sido alcançados, já que nos países subdesenvolvidos os fuzilamentos são normalmente rápidos.

Nota final: nos casos subsidiários, em que este modelo operacional sirva para desviar atenções, quando a verdade vier à toma já o sistema caiu de tal forma em descrédito que os verdadeiros culpados também acabarão por ser ilibados ou o processo arrastar-se-á penosamente, até à prescrição. Em contextos mais desenvolvidos a manipulação de certa imprensa pode ser crucial para atingir os objectivos deste modelo operacional.


quarta-feira, maio 21, 2003


Pedofilia

Há coisas sobre as quais é melhor reflectir bem antes de escrever.

Por isso, apenas dois sublinhados entre tudo o que ouvimos ao início da tarde, a propósito da detenção de Paulo Pedroso, o delfim de Ferro Rodrigues, por suspeitas de pedofilia.

António Costa, líder parlamentar do PS, aos jornalistas:
"Tivemos 10 dias para nos habituarmos a que é possível montar no Portugal democrático aquilo que foi montado"

Pedro Namora, ex-casapiano, na SIC (e citado de cor):
A casa onde se passaram as orgias não era propriedade de Jorge Ritto, tinha sido emprestada pelo actual director do SIEDM (a "secreta" do sector da Defesa, tutelado pelo ministro Portas). Por uma questão de transparência esse senhor não devia ter sido já afastado de funções?

Ponto final parágrafo. Sem comentários.


terça-feira, maio 20, 2003


Casablanca

Por falta de tempo só agora comentamos um facto significativo dos últimos dias, os atentados que mataram 41 pessoas em Casablanca na sexta-feira passada. Foi por causa disto, e não só por anti-americanismo primário, que muitas vozes, e não só de esquerda, e não só da direita dos interesses (neste caso interesses franceses e outros afins), se levantaram contra a guerra no Iraque.

Quem conhece um pouco o mundo islâmico, e em particular o Magrebe, sabe que o telephone arabe toca de uma ponta à outra desse mundo. Por exemplo: pode o New York Times, ou mesmo o El Pais, ignorar Durão Barroso na fotografia do encontro das Lages, com Bush., Blair e Aznar, pode o departamento de Estado norte-americano achar que o senhor se chama Burroso, mas na rua árabe, no canto mais esconso de qualquer medina, até mesmo um analfabeto sabe qual foi a posição do governo português - ou do espanhol, do francês ou do belga - sobre a guerra no Iraque.

Em linha recta, Rabat, a capital política de Marrocos, está mais perto de Lisboa do que de Argel ou de qualquer outro ponto do mundo islâmico, mas o que afecta outro país islâmico, mesmo longinquo, como o Iraque, afecta o ponto mais ocidental do Isláo, que é Marrocos.

Acontece que Marrocos, tal como o Magrebe em geral, vive num dilema entre mais democracia política ou, chamemos-lhe assim, mais progresso social.

Mais democracia implica aceitar no jogo político a presença dos fundamentalistas islâmicos, bem implantados nos bairros populares das grandes cidades, e que em última instância podem ganhar eleições e destruir o sonho democrático, por acção ou reacção preventiva, como na Argélia.

Mais progresso social, ou seja, crescente laicização da sociedade, maior protagonismo da mulher e desenvolvimento económico, com a consequente fixação de uma classe média urbana, implica, no Magrebe, menos democracia política, ou seja, não permitir nenhum espaço de contestação aos fundamentalistas, como na Tunísia.

A esquerda europeia dificilmente entenderá este dilema, que já era o de Hassan II, apesar dos seus "jardins secretos", e que é agora o do seu filho, Mohammed VI, que tem optado por passos discretos, ora um pouco mais de democracia, ora um pouco mais de progresso social, para fazer o seu caminho.

A direita alinhada com os conservadores norte-americanos também em nada ajudou com a sua distante guerra no Iraque que deu o golpe final na mais laica de todas as ditaduras da região. A reacção aos senhores da guerra já se fez ouvir às portas do mundo de cá. O regime marroquino vai ter agora de endurecer e, como na vida nada é perfeito, não faltarão certamente razões à Amnistia Internacional para fazer chover postais sobre o Palácio Real de Rabat.


Para além da esquerda e da direita

Agradeço ao Cruzes Canhoto! o link para aqui. E, embora não se deva morder a mão que nos dá de linkar, desculpe lá mas classificar a Piolheira na Aliança de Fachos é de um evidente arcaismo de esquerda. Nessa categoria que criou não faltam boas companhias, atípicas, como o camarada Pacheco, mas outras a bem dizer estão perfeitamente descritas pela ciência política e são passíveis de contágio, como a Coluna Infame, provocando ataques crónicos de posts em defesa do doutor Portas ou, quem sabe, talvez mesmo um sindroma Delgado em espíritos mais fraquinhos do que o brilhantismo dos ditos Infames.

Isto aqui funciona assim: todos os dias temos uma lista para preencher com duas colunas: de um lado, pensamentos de esquerda, do outro, pensamentos de direita. Por cada pensamento que temos ao longo do dia assinalamos com uma cruz de um lado ou de outro. Umas vezes chegamos ao fim do dia mais à esquerda, outras mais à direita. É por causa dessa listinha que pedimos encarecidamente ao Cruzes Canhoto! que indique quais os posts aqui pescados que entende serem claramente de direita.

Se nos for permitido rejeitar a pertença desde já agradecemos entrar na lista dos Desalinhados. Este distanciamento foi conseguido depois de uma curta passagem pela esquerda festiva, que rapidamente nos arruinou as economias. Ainda tentámos a esquerda caviar, mas já não tinhamos dinheiro para pagar a quota. Gorada a esperança de entrar directamente no Largo do Rato, pela porta grande, e como independentes, optámos por uma via mais prosaica, a sede local do PS, mas havia lá uns tipos que faziam lembrar aquele segundo ou terceiro friso da bancada parlamentar socialista, com um visual muito Felgueiras, e demos meia volta. No PSD foi a mesma coisa, fomos atendidos por um delegado de informação médica que, evidentemente, só queria aproveitar o partido para subir na vida e agora até já é vereador do Desporto e Cultura lá da terra. Dizem que é grande entusiasta da candidatura presidencial do Santana Lopes.


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